Na narrativa da Paixão de Jesus, onde na Cruz se realiza o gesto supremo da obediência do Filho - onde o amor não tem limites e vai até as ultimas conseqüência. Nesta atitude do Filho, de sua vida entregue ao Pai e aos irmãos, encontramos o coração da fé cristã. Em uma expressão da língua grega Kenosis, traduzido para nossa língua como esvaziamento, podemos vislumbrar um amor sem limites, muito bem expresso pelo Apostolo Paulo no hino aos Filipenses:
“Sendo ele de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo, e assemelhando-se aos homens. E, sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz. Por isso Deus o exaltou soberanamente e lhe outorgou o nome que está acima de todos os homes, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho no céu, na terra e nos infernos. E toda língua confesse, para a glória de Deus Pai, que Jesus Cristo é o Senhor (FL.2,6-11).
Neste momento da Cruz, na maior experiência do abandono do Filho, a tradição bíblica nas apresenta uma mulher ao pé da Cruz. Esta mulher, que a iconografia cristã nos apresenta, tem seu rosto voltado para o lado aberto do Cristo dormido na cruz numa atitude de silenciosa contemplação, de onde brota “sangue e água”.
Os pensadores da Igreja dos primeiros séculos, ou seja, os Santos Padres, viram nela a figura da Igreja de Cristo, que contempla a fonte de seu nascimento - assim como Eva, que recebe sua existência do lado de Adão descansando. Dessa forma, a Igreja recebe sua existência do Cristo dormido na Cruz, de onde brota os Sacramentos da Iniciação Cristã (batismo-Eucaristia).
Esta Igreja traz consigo uma identidade teológica, que nós professamos no símbolo de nossa fé: “Creio na Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica”. Esses quatro atributos teológicos, inseparavelmente unidos entre si, indicam os traços essenciais da Igreja de Cristo e de sua missão no mundo. Ela deve concretizar no mundo, isto que ela é desde sua fonte. Estes atributos são de Cristo que, pelo Espírito Santo, dá a sua Igreja o ser una, santa, católica e apostólica.
A Igreja é una por sua fonte. O modelo supremo e o princípio de sua unidade da Trindade de Pessoas: Pai e Filho no Espírito Santo. A Igreja é una por seu Fundador. “Pois o próprio Filho encarnado, príncipe da paz, por sua cruz reconciliou todos os homens com Deus, estabelecendo a união de todos em um só Povo, em um só Corpo”. (GS. 78,3). Contudo, desde a origem, esta Igreja una se apresenta com uma grande diversidade, que provém ao mesmo tempo da variedade dos dons de Deus e da multiplicidade das pessoas que os recebem.
A Igreja é santa, pois Cristo, Filho de Deus, que com o Pai e o Espírito Santo é proclamado o Único Santo, amou a Igreja como sua Esposa. Por ela se entregou com o fim de santificá-la. Uniu-a a si como seu corpo e cumulou-a com o dom do Espírito Santo. A Igreja é, portanto, o Povo Santo de Deus, e seus membros são chamados santos.
A Igreja é Católica, porque é enviada em missão por Cristo à universalidade do gênero humano, não tendo assim fronteiras que delimitem o seu espaço. “Todos os homens são chamados a pertencer ao novo Povo de Deus. Por isso, o Povo permanecendo uno e único deve estender-se a todo o mundo e por todos os tempos, para que se cumpra o desígnio da vontade de Deus, que no início formou uma só natureza humana e finalmente decretou congregar seus filhos que estavam dispersos. Este caráter de universalidade que marca o Povo de Deus é um dom do próprio Senhor, pelo qual a Igreja Católica, de maneira eficaz e perpétua, tende a recapitular toda a humanidade com todos os seus bens sob Cristo Cabeça, na unidade do Espírito Santo” (LG.13).
A Igreja é apostólica, por ser fundada sobre os apóstolos. A Igreja foi e continua sendo construída sob “o fundamento dos apóstolos” (Ef. 2,20), testemunhas escolhidas e enviadas em missão pelo próprio Cristo. Ela conserva e transmite, com a ajuda do Espírito que nela habita, o ensinamento, o depósito precioso e as salutares palavras ouvidas da boca dos apóstolos; continua a ser ensinada, santificada e dirigida pelos apóstolos, até a volta de Cristo, graças aos que a eles sucedem na missão pastoral. Esses são representado pelo colégio dos bispos, assistidos pelos presbíteros, em união com o sucessor de Pedro, o Papa, pastor supremo da Igreja.
Esta Igreja em sua identidade teológica - Una, Santa, Católica e Apostólica - se torna realidade visível numa comunidade de fé que denominamos com o nome de Paróquia, termo oriundo da língua grega (da palavra Parusia) que significa “o lugar onde acontece a salvação”. A Paróquia é, portanto, o lugar onde esta Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica acontece. Dessa forma, estabelece-se o Código de Direito Canônico: “Paróquia é uma determinada comunidade de fiéis, constituída estavelmente na Igreja particular, e seu cuidado pastoral é confiado ao pároco como a seu pastor próprio, sob a autoridade do Bispo diocesano. (CIC. 515 par. 1)”.

“O Pároco é o pastor próprio da paróquia a ele confiada; exerce o cuidado pastoral da comunidade que lhe foi entregue, sob a autoridade do bispo diocesano, em cujo ministério de Cristo é chamado a participar, a fim de exercer em favor dessa comunidade o múnus de ensinar, santificar e governar, com a cooperação dos outros presbíteros ou diáconos e com o auxilio dos fieis leigos, de acordo com o direito” (CIC. 519).
É o Magistério Latino Americano e Caribe, no documento de Aparecida, que nos oferece uma compreensão ampla e riquíssima disto que é a paróquia: “Entre as comunidades eclesiais, na quais vivem e se formam os discípulos e missionários de Jesus Cristo, sobressaem as Paróquias. São células vivas da Igreja e o lugar privilegiado no qual a maioria dos fieis tem uma experiência concreta de Cristo e a comunhão eclesial. São chamadas a ser casas e escolas de comunhão…. uma valente ação renovadora das Paróquias, a fim de que sejam de verdade espaços da iniciação cristã, da educação e celebração da fé, abertas à diversidade de carismas, serviços e ministérios, organizadas de modo comunitário e responsável, integradoras de movimentos de apostolado já existentes, atentas à diversidade cultural de seus habitantes, abertas aos projetos pastorais…
2011 foi um Ano de Graça do Senhor para a Comunidade Paroquial Santo Antonio de Orleans - bem como para as Paroquias Santa Cândida, Sant’Ana de Abranches e São Miguel em Tomaz Coelho, município de Araucária. Estas quatro comunidades viveram seu ano jubilar, momento muito especial e de abundantes graças, pois é uma oportunidade para refletir e repensar os acontecimentos ocorridos no passado, possibilitando-nos projetar o momento presente, em vista das metas que gostaríamos de alcançar no futuro.
Foi no dia 15 de Dezembro de 1936 que Dom Atico Eusébio da Rocha, Arcebispo Metropolitano de Curitiba, criou as quatro paróquias. Eis o que afirma a referida portaria: “Dom Attico Eusébio da Rocha, por mercê de Deus e da Santa Sé Apostólica, Arcebispo Metropolitano de Curitiba. Pela presente, attendendo a necessidade de um serviço parochial profícuo e de accordo com as prescripções do Direito Canônico, depois de ouvido o parecer dos Revmos. Consultores Metropolitanos e usando de Nossa jurisdição ordinária. Havemos por bem elevar a cathegoria de Freguesias amovíveis (can. 454 par.3) as quatro Capellas curadas de Sant”Anna de Abranches, de Santa Cândida, de Santo Antonio de Orleans e de São Miguel de Tomas Coelho, cujos limites confirmamos e que são como em seguida se descrevem: (…).
Como estes quatro curatos já estavam sob a responsabilidade pastoral dos Padres da Congregação da Missão, evidentemente que foram entregues à responsabilidade dos Padres Vicentinos e que permanecem até nossos dias.
Que este Jubileu de Diamante seja um momento para reflexão e tomadas de decisões que permitam a nós, párocos, intensificar nosso zelo e cuidado pastoral destas paróquias que estão sob nossa responsabilidade e condução pastoral.
-Pe. Gilson Cezar de Camargo.
Mestrado em Teologia (especialização em Liturgia e Teologia dos Sacramentos)
Pároco da Paróquia Santo Antonio – Orleans.